20 de março. Nesta data, em 2003, os EUA lideraram uma coalizão de países na invasão do Iraque com a justificativa de instalar a democracia e pela ameaça que representava o ditador Saddam Hussein e suas armas de destruição em massa.
Mais de um ano depois, a Resistência iraquiana persiste e já se tornou algo cotidiano, visto que, a cada dia, sabe-se pelos jornais de ataques sofridos por integrantes e adeptos da coalizão invasora. Por que isso acontece se a intenção do grupo de países liderados por George Walker Bush era tão digna?
A resposta para tal indagação pode ser encontrada em “Bush na Babilônia – A Recolonização do Iraque” (2003), livro do escritor paquistanês Tariq Ali, jornalista e editor da tradicional publicação inglesa “New Left Review”.
O autor de “Confronto de Fundamentalismo” já na introdução anuncia que seu novo “livro combina a história iraquiana e árabe com a política mundial. Sem conhecer o passado é impossível entender o que acontece hoje, e a história é apresentada aqui como um alerta tanto para quem ocupa quanto para quem resiste”.
Para isso, Ali faz uma regressão e conta a história do Iraque desde a sua fundação como tal em 1920, depois da destruição do Império turco-otomano, quando o território passou a integrar o Império Britânico. Até esse momento, não obstante fazer parte de um império, as localidades eram autônomas, na medida em que pagassem os impostos.
A partir dessa mudança, ele narra, do ponto de vista dos derrotados que tentaram resistir – e ainda resistem - às injustiças, à exploração e à dominação de uma nação, a história de uma população que permaneceu na maior parte do tempo em segundo plano por causa de interesses pequenos sempre favoráveis a uma minoria autoritária.
Apresenta-se então o Partido Comunista do Iraque junto com o Partido Baath, forças nacionalistas de resistência imperial, com grande inserção nas massas no meio do século XX, importantes para o direcionamento histórico do país, tanto pelo que fizeram quanto pelo que deixaram de fazer. O autor dá grande atenção a isso, conta a história de seus fundadores, perseguidores da libertação nacional, os erros do PCI e a conversão do Baath numa organização autoritária.
Petróleo, guerras e Saddam Hussein são palavras que não fugirão da memória quando se pensa no Iraque. Por outro lado, talvez em virtude do tipo de cobertura que a mídia dispensa, esquece-se de um povo que sofre e tenta sobreviver com a opressão histórica de um tipo poder, que até pode trocar de mãos, mas não muda de conduta.
Tariq Ali subverte essa relação e privilegia homens e mulheres comuns, que se exilaram – ou foram convidados a se retirar - do chão em que nasceram e, assim, puderam sobreviver para contar um pouco da história desse país cravado no Golfo Pérsico.
Um deles é o poeta Saadi Youssef. Comunista, ele fugiu do Iraque, em 1979, quando Saddam Hussein se tornou governante absoluto do país. Nascido em 1934, em Basra, passou em Bagdá a maior parte de sua formação. No mesmo ano em que deixou suas raízes, escreveu o seguinte poema, que retrata bem a história da população iraquiana:
E a polícia de Damasco nos chuta E a polícia do Iraque E a polícia americana dos árabes E a inglesa E a francesa E a persa E a polícia otomana E a polícia dos califas fatímidas E também nos chutam nossas famílias, Nossas ingênuas famílias de bem, Nossas famílias assassinas!!! Somos os filhos dessa loucura. Sejamos o que quisermos.
Este é um entre outros poemas e um entre outros personagens apresentados no livro por Tariq Ali. Todos têm em comum a sensibilidade e a revolta daqueles que sabem que a luta pela independência do Iraque, desde a sua criação, foi conseguida com muita luta e muito sangue. Mas agora, com a invasão de Bush, o país regride no tempo.
A libertação do Iraque aconteceu apenas em 1958, com um golpe de Estado que derrubou uma elite comandada por Nuri al-Said, militar aliado britânico desde 1916 que mandava e desmandava no país e tinha como força de sustentação a repressão interna. O Partido Comunista iraquiano, um dos mais importantes do Oriente Médio; os grupos nacionalistas, com a presença marcante do Partido Baath; e os “Oficiais Livres”, corrente militar nacionalista, deram sustentação à operação.
Com a queda do antigo regime, o povo saiu às ruas para comemorar. Em Bagdá, mais de cem mil pessoas demoliram a estátua do emir Faissal, símbolo do antigo Estado repressor. Apesar da imagem ser extremamente igual à derrubada forjada da escultura de Saddam, as semelhanças param por aí, pois nada parecido aconteceu com a invasão da coalizão “libertadora” de Bush, por mais que tenham feito tudo para que se acreditasse que sim.
Além disso, a atual situação acende na cabeça dos iraquianos a luz do passado. Os ocidentais desde o tempo das Cruzadas vêm tentando “libertar” o Oriente Médio. Berço da civilização suméria de cerca de 4.000 a.C., o Iraque foi palco de civilizações urbanas, sendo que a mais conhecida foi a babilônica, na região da Mesopotânia, onde se situavam diversos povos e expedições.
No século 13, relata Ali, os mongóis sitiaram a cidade. Um povo sem cultura escrita, achavam que livros e bibliotecas era ameaças. Por isso, queimaram a Biblioteca de Bagdá, destruíram manuscritos e traduções raras de antigos textos gregos. A semelhança de atitudes fizeram com que os norte-americanos fossem chamados pelos iraquianos de “novos mongóis”.
Esse é um entre outros eventos que fazem Tariq Ali sustentar a tese de que lutar pela democracia no Iraque hoje é resistir à invasão de Bush, pois o povo deve andar com suas próprias pernas e precisa construir um regime de acordo com suas necessidades internas, pois, só dessa forma, a população ficará em primeiro lugar.
Com seu histórico de resistência, o povo iraquiano também tem a intuição de que uma “democracia” imposta vem da mesma forma como vai, de uma hora para outra. Uma “democracia” sem o povo é um sistema vazio e sem sustentação, que pode ser demolido da mesma maneira como foi construído.