Por Ricardo Lima de Aguiar- Redação Porto Cultura - 21/06/2008 | 19:47
O Santander Cultural – Unidade Porto Alegre inaugura em 24 de junho a mostra TRANSFER_cultura urbana. arte contemporânea. transferências. transformações, em exibição até setembro. A iniciativa propõe uma reflexão sobre a cultura produzida nas ruas das cidades, tanto do Brasil como em outras partes do mundo e reúne os principais ícones da arte urbana numa grande mostra brasileira, promovendo um amplo olhar sobre o tema e provocando reflexões sobre este movimento cultural.
TRANSFER é um projeto abrangente e não se restringe apenas à mostra. É o ponto de partida para um laboratório de experiências e convivência. A realização do Santander Cultural reúne uma gama de obras e materiais de mais de 100 artistas, em torno de 300 obras de acervos privados nacionais e do exterior, além de vídeos e fotografias. Mais, onze obras/instalações criadas especialmente para a exposição.
A iniciativa inclui também uma mostra de filmes inéditos no Brasil sobre arte urbana e uma centena de fotografias de intervenções urbanas e diversos vídeos. Um dos destaques de TRANSFER é uma ousada instalação de arquitetura “skatável”, ou seja, que pode ser percorrida por skatistas, criada pelo arquiteto Pedro Mendes da Rocha, com consultoria artística do coletivo Noh de skate, arte e arquitetura.
Com curadoria de Lucas Ribeiro, Fabio Zimbres, Alexandre Cruz e Christian Strike, a exposição está organizada em quatro eixos – Beautiful Losers, Intervencionistas, Mauditos e Street Fine Art – que permitem visualizar influências da street art e contextualizá-las no panorama mundial.
A mostra traz obras de artistas norte-americanos que expõem pela primeira vez no Brasil. Nomes como Thomas Campbell, Cheryl Dunn, KAWS, Glen E. Friedman, Chris Johanson, Mike Mills e Craig R. Stecyk III, estão em TRANSFER.
“Este projeto é fruto da nossa atuação, nos últimos dois anos, em atividades com artistas, editores, galeristas, videomakers, representantes e pensadores da arte urbana. A idéia de TRANSFER, cujo próprio nome indica o conceito de transferência, é provocar a reflexão e o diálogo com o público sobre esta arte que está nas grandes metrópoles. Vamos discutir as influências que recebem e exercem, bem como sua articulação com os mais variados segmentos sociais, tanto na mostra quanto nas atividades simultâneas que realizaremos ao longo dos próximos três meses”, afirma Liliana Magalhães, superintendente do Santander Cultural.
A arte urbana apresentada em TRANSFER tem trabalhos de artistas que usaram as ruas para se expressar, criaram seus próprios veículos de comunicação, redes de distribuição e valores estéticos. No espírito do it your self (faça você mesmo), com grande influência do movimento punk, esses artistas são alguns dos personagens do hip-hop, do skate, da arte do fanzine e de outras ramificações, conexões e evoluções da cultura urbana.
Para Lucas Ribeiro, “Street art, pós-graffiti e intervenção urbana são algumas maneiras de chamar o fenômeno que passou a acontecer nas ruas de grandes metrópoles em meados dos anos 90 e, na virada do milênio, entrou em ebulição. Não é exatamente graffiti o termo que virou sinônimo da arte integrada ao movimento hip-hop, pois ignora suas regras, estilos e códigos de conduta. Com cartazes, adesivos, pincéis, stencils e até sprays, artistas e designers passaram a usar as ruas como suporte para se expressarem com as mais variadas técnicas e estilos”.
“No espaço democrático e, muitas vezes, inusitado, das metrópoles, a arte retornou ao figurativo, resgatou o pop e usou técnicas de marketing e publicidade para atingir os cidadãos”, conclui Ribeiro.
Desde o início do movimento até hoje, os artistas ligados à street art passaram a ocupar museus e galerias de arte conceituadas, além de participarem de filmes e documentários. Ao chegar nas prateleiras de grandes livrarias, lojas de discos, de moda e na publicidade, os personagens do movimento começaram a criar novas formas de integração com o espaço urbano.
Trata-se de uma complexa cultura, com raízes na América do Norte, que cresceu até extrapolar as fronteiras do continente e tornar-se um fenômeno global. No Brasil ela ganhou força, identidade própria e atualmente é reconhecida e exportada para diversos continentes.
Influência mundial
Na mostra do Santander Cultural estão trabalhos inéditos de 27 artistas ligados ao Beautiful Losers: Contemporary Art and Street Culture, o maior e mais influente projeto de arte urbana itinerante já realizado no cenário mundial, que por sua importância é apresentado em um eixo exclusivo de TRANSFER. O projeto nasceu na América do Norte e aborda street art, música e produção cinematográfica, além de contar com uma rampa de skate aberta ao público em suas exibições.
A iniciativa, que reuniu uma série de artistas - hoje com trajetórias internacionais - e trabalhos em pintura, vídeo, instalações, além dos relacionados ao skate, já passou pelo Contemporary Arts Center de Cincinnati nos Estados Unidos, pelo Tri Postal na França e integrou a Trienal de Milão na Itália, em 2006. Atualmente a exposição percorre o mundo destacando o grupo e suas origens.
A experiência brasileira
Nos últimos anos, a arte urbana originou alguns grandes eventos no Brasil, embora não tão abrangentes quanto os do exterior. A exposição Fabulosas Desordens mostrou o Graffiti Wild Style e trabalhos de artistas plásticos que possuem raízes na Street Art no Rio de Janeiro. Na mostra A Conquista do Espaço, em São Paulo, com curadoria do coletivo de arte/design paulistano Base-V, foram apresentados os trabalhos de onze artistas de rua de diversos países, com uma bela seleção da arte de rua contemporânea. O Memorial da América Latina, também em São Paulo, recebeu Spray, uma exposição dos novos muralistas da capital paulista, com curadoria da Choque Cultural.
A primeira exposição individual no Brasil dos irmãos Pandolfo, mais conhecidos como osgêmeos, foi na Galeria Fortes Vilaça, em 2006. No mesmo ano, na comemoração dos dois anos do Museu Afro Brasil, em São Paulo, foi realizada uma série de exposições temáticas. Entre elas, Território Ocupado, que examinou o trabalho dos artistas de rua como linguagem inovadora e contemporânea. Entre estes artistas estavam Speto, Kboco e Onesto.
A arte de rua feita no Brasil teve o impacto das gerações apresentadas em Beautiful Losers, com injeções de criatividade, influências, adaptações e intercâmbios a nível global. Sem dúvida, o grupo foi pioneiro na abordagem da stree art. A marca continua tendo forte influência no Brasil e no mundo, sendo o ponto de partida para diferentes movimentos e cenas locais. Por outro lado, o movimento Punk, o Hip-Hop, o Skate e o Fanzine são produtos da contracultura norte-americana que se tornaram globais, com características e ramificações próprias em cada país que atingem, inclusive no Brasil.
A intervenção urbana, tanto pela street art quanto pelo skate, sofreu uma série de mutações para se adaptar ao contexto brasileiro. Por exemplo, os artistas de rua, além de usar sprays, incorporaram a tinta látex e o rolinho de pintura às suas intervenções -- materiais mais econômicos e acessíveis para os brasileiros.
No skate de rua brasileiro, é mais difícil usar a arquitetura das cidades como obstáculo/plataforma para a expressão individual, tão popular nas metrópoles dos Estados Unidos e Europa. A dinâmica demanda muito mais esforço e intervenção dos skatistas, dada as condições de grande parte das ruas brasileiras.
Barreiras e dificuldades relacionadas ao subdesenvolvimento também podem ser facilmente encontradas nos universos da música e publicações independentes nacionais. Ao mesmo tempo, é das dificuldades e diferenças culturais que a cultura brasileira estabelece seus diferenciais.
Artistas nacionais como osgêmeos, Nunca e Bruno 9li expõem sem parar. Eles participam de inúmeros projetos em galerias, museus e lojas ao redor do mundo, além de receberem atenção especial da mídia especializada internacional, estampando capas de revistas, por exemplo.
Os artistas brasileiros que representam São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia e Ceará na mostra TRANSFER são: Alberto Monteiro, Alex Hornest, Billy Argel, Bruno 9li, Carlos Dias, Fabio Zimbres, Felipe Yung (Flip), Flavio Samelo, Herbert Baglione, Kboco, Lauro Roberto, Lourenço Mutareli, Luciana Araújo, Luiz Fernando Schiavon, Marcelo Cidade, Mello, MZK, Nina Mores, Nunca, Onio, Ramon Martins, Rim, Silvana Mello, Speto, Stephan Doitschinoff, Titi Freak, Vitché, Walter Nomura (Tinho) e Weaver Lima entre outros.
Fonte: Santader Cultural