Um livro, uma história, uma mulher
Os olhos de Marguerite Duras
“Ahora anochece. Me dice que toda mi vida recordaré esa tarde, incluso cuando haya olvidado su rostro, su nombre…” (El Amante)”
Nunca neguei que tenho uma característica infantil quando se trata de elaborar processos internos. Leio e releio o mesmo livro; junto tantas edições da mesma obra quanto puder. Crianças fazem isso para reelaborar suas emoções e sentimentos, quem tem ou teve filhos pequenos sabe quantas vezes temos que ler a mesma história. Eu sou assim com poesia, romances e músicas. Criança.
No entanto, a mulher que admiro escreveu sua biografia depois de uma certa idade. Primeiro ela viveu muito, depois contou ao mundo um período de sua adolescência e este período contado é um livro que releio.
A família
“Morri quando tinha 18 anos e deixei a Indochina”.
Ela escreveu isso perto do fim da vida – bem, não tão perto, ela viveu 81 anos –… digamos que na metade da vida. E a vida dela não foi uma vida comum para quem se diz ter morrido tão nova. Ela Nasceu na Indochina (Vietnã), passou a infância e adolescência entre a mediocridade da vida cotidiana junto à família e o internato. O que fez de diferente é o que está contado no romance O Amante, livro que leio e releio.
O nome desta mulher? Eu prefiro sempre o de escritora, Marguerite Duras, ao de batismo. Imagino que às vezes o nome que foi dado não vai condizer com pessoa, ela audaciosa e necessitada de um novo batismo, ficou com o primeiro nome e acrescentou, depois de adulta, o nome do lugar onde seu pai (quem ela mal conheceu) nasceu. Marguerite morreu e está enterrada no Cemitério de Montparnase, em Paris.
No livro ela conta, audaciosamente, que com 15 anos iniciou um romance com um chinês 10 anos mais velho e muito rico. A narrativa é exótica, erótica e comovente.
Sem falsos pudores ela conta como ainda menina seduziu e foi seduzida; como sua mãe por conveniência econômica, para proteger o filho mais velho endividado com jogos de azar, agia como se não soubesse o que a filha fazia nas tardes quentes de Saigon; como a direção do internato também fazia vistas grossas às suas fugas.
E nestas fugas Marguerite aprendeu a amar. Amar como se tem direito e obrigação consigo mesma, amar fisicamente com paixão, desejo e prazer e a amar platonicamente. Ao dizer que morreu as 18 anos, Marguerite nos diz que morreu quando deixou seu amor em outro país e este estava prometido a uma moça rica e chinesa, conforme a tradição oriental. Só foi encontrá-lo muitos anos mais tarde. Foi então que resolveu revelar seu “segredo”, o qual eu particularmente considero um dos melhores que já conheci.
“Um dia, eu já tinha uma certa idade, no hall de um prédio público, um homem veio até mim. Ele se apresentou e me disse: “Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que a senhora era bonita quando jovem. Eu vim lhe dizer que, para mim, a senhora é mais bonita agora do que quando era jovem. Gosto menos de seu rosto de moça do que o de agora, devastado.”
Marguerite na época do amor
Ela começa a sua história assim. E aí eu começo a amar a história desta mulher, que dizem ter sofrido de envelhecimento precoce, que o rosto enrugou cedo, bem antes da idade normal em que nosso rosto começa a traçar caminhos. Quanto à veracidade disso, nunca pude confirmar, mas acredito que tenha acontecido. O fato de virarmos às costas ao amor envelhece e depois mata, em algumas pessoas lentamente (para mim, mesmo que a morte seja natural na velhice, a causa sempre é o amor) e em outras rápida e instantaneamente. Um corpo que deixa sua alma com outra pessoa não tem como sobreviver e, visto que a condição natural da nossa espécie é amar, e condição cultural da nossa espécie é entregar o amor nas mãos de outro. Assim, não importa de que forma tenha sido o amor ou quanto tempo durou, é ele que mata.
“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com todos, nunca perguntei. Creio que alguém já me falou dessa investida do tempo que nos acomete às vezes na primeira juventude, nos anos mais festejados da vida. Esse envelhecimento foi brutal. “
Marguerite soube aproveitar roupas e sapatos usados e um chapéu masculino para sobreviver à pobreza (foto)- no livro é uma das partes que mais me encanta – soube criar um mundo de paixão num quarto de uma cidade nada acolhedora com ocidentais: franceses representavam a colonização; e soube viver como a vida exige e a civilização nos pede, depois que saiu da Indochina, com todo o preparo. Estudou, escreveu, fez cinema, atuou na resistência francesa, foi expulsa do partido comunista porque falava o que não era para ser dito, casou, viveu em Mantparnase e morreu. Deixou o corpo morrer com 81 mesmo tendo dito que morrera aos 18. Estranha inversão nos números para mim que gosto tanto da história da menina e da obra da mulher.
Roteirista de "Hiroshima, meu amor."
Marguerite deixou uma obra extensa. Em 1991, O Amante virou roteiro de um filme lindo e eu, bem, eu continuo amando o livro. Exortando em cada página as coisas que me privei, os rios que deixei de navegar por estar sozinha. Não desci o Mekong como Marguerite fez, não fui conhecê-lo, o que sei dele é o que leio nos livros sobre guerra; parei de arrumar roupas usadas ou feitas por mim depois da minha adolescência; não procuro por sapatos dourados grandes ou apertados por que não saio para dançar e tenho escrito coisas, coisinhas, nada que vá me levar a Paris com minha amiga Patrícia.
Quanto ao amor, ele mata, e se ao prescintir a proximidade da morte, não importa quando e nem do quê, saberei que foi ele, esse sentimento invasivo que por vezes ama em outras se deixa amar, como já disse alguém.
Ah! antes que esqueça, ela bebeu muito para suportar os dias. Não o faço porque meu corpo insiste em não aceitar. Faço outras loucuras e tenho outros vícios. Lembrei deste livro porque minha irmã escreveu que: “O amor é como capim: você planta, ele cresce… aí vem uma vaca e acaba com tudo“. Dou risada, mas sei que se não for uma vaca, será qualquer outro ser.
(para Vânia e seu nome em russo)
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Lindo texto. Recomendação de uma amiga do Face, Scheila Silveira. Abraços.