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Utopia. Cidade imaginária criada por Thomas Morus no clássico homônimo em 1500 e algo inspirada nos relatos de Vespucio sobre a nossa Fernando de Noronha. Para Morus, um lugar novo e puro seria perfeito para abrigar uma nova sociedade, racional, cooperativa e cujos interesses encontram-se em equilíbrio. Reina, portanto, a paz. Popularmente, o sonho de Morus tornou-se sinônimo de algo ideal, quase irrealizável. Surgem, pois, duas perguntas: “Ideal a quem?” e “O que aconteceria se tentarmos?”. É a respeito destas duas questões que outras obras literárias digladiam, para deleite e desconforto geral. George Orwell e Aldous Huxley são, talvez, os expoentes mais conhecidos do que aconteceria se tais buscas por paz eterna desse errado.
Surgiriam governos autoritários, pessoas alienadas, sistemas de repressão a conflitos e a tecnologia seria usada como arma de controle da sociedade. Em mundos em que o conceito de bem comum torna-se flexível, a busca irredutível por uma sociedade utópica resultaria, contraditoriamente, uma utopia negativa. Prato cheio para a ficção científica que, além de satirizar (e anunciar quanto aos riscos das convenções sociais extremas) o passado, torna a distopia cada vez mais presente no caso da literatura cyberpunk, por exemplo, em que corporações de alta tecnologia tornam os Estados nacionais mais frágeis. Talvez por isso revisitar este tipo de ficção em tempos atuais seja menos uma questão de prazer e se aproxime da necessidade. Conceitual, crítica, filosófica. Fisiológica, até. A psicossomática está de prova.

"Possivelmente, a iminência de uma mudança social seja uma das condições mais intensas para alimentar a imaginação distópica", diz autor (Foto: Divulgação)
‘Nós’, ‘Admirável mundo novo’, ’1984′, ‘Fahrenheit 451′, ‘Revolução no futuro’. São muitos os títulos a destrinchar. ‘Quando o futuro morreu?’ (Edunisc, Editora Gazeta), do professor universitário Rudinei Kopp, faz justamente isso. Analisa as relações entre a sociedade e a mídia na literatura distópica de Zamiatin, Huxley, Orwell, Vonnegut e Bradbury.
PC: Se pudesse, teria analisado mais alguma obra?
RK: A proposta inicial contemplava mais dois textos: ‘A guerra das salamandras’ (1936), de Karel Capek, e ‘Kalocaína’ (1939), de Karin Boye. As análises até chegaram a ser feitas, mas essas narrativas não ficaram bem encaixadas às demais. A projeção de futuro em ‘A guerra das salamandras’, por exemplo, destoava em relação aos outros. ‘Kalocaína’ é um texto interessante, mas não possui, nem de perto, a mesma relevância e notoriedade dos demais. Merecem estudos, certamente, mas não no contexto que a pesquisa foi revelando.
Peças de teatro como o drama ‘R.U.R’ (1921), de Capek, ou o filme ‘Metropolis’ (1927), de Fritz Lang, são importantes como manifestações da ficção distópica nesse período do século XX. Para o meu trabalho, elas têm relevância por deixar evidente a transversalidade desse tema, a imaginação distópica, em diversos modos de expressão artística. Fiz a opção pela literatura por considerar que havia uma série de elementos que poderiam ser melhor explorados a partir dos romances.
PC: Os exageros apresentados nas obras que analisaste são intencionais e evidenciam desejos e anseios sociais da época em que foram escritos. Por que ainda nos perturbam?
RK: A maior perturbação surge quando reconhecemos nossa sociedade e nossos modos de vida nesses textos. Essas narrativas falavam, afinal, de supostos mundos piores. Tendemos a viver sem nos dar conta de como as coisas funcionam e então, repentinamente, um texto de 50 ou 60 anos atrás vem nos desnudar e mostrar que alguém temia que as coisas chegassem a esse ponto.
Particularmente, interesso-me pela capacidade que esses textos têm de falarem sobre as suas épocas, sobre os medos de um período, de uma sociedade. É nesse conjunto de temores e angústias que podemos entender aquilo que, tantas vezes, uma sociedade não consegue ver. Os ficcionistas distópicos podem servir como indicadores de tendências daquilo que vive na inconsciência ou numa consciência adormecida de um tempo.
PC: Estamos em uma época de mudanças de paradigmas, com uma possível inversão no poder político entre os hemisférios. Discute-se também hoje o surgimento de novos radicalismos, em especial o religioso. Isso abre espaço para novas distopias?

"Possivelmente, a iminência de uma mudança social seja uma das condições mais intensas para alimentar a imaginação distópica", diz autor (Foto: Divulgação)
RK: Possivelmente, a iminência de uma mudança social seja uma das condições mais intensas para alimentar a imaginação distópica. Tanto mais se essa mudança mostrar algum contorno que ameace os modos de vida em curso; ou se essa mudança for o resultado de uma promessa que começa a se manifestar pelo seu viés menos previsível. O comunismo, por exemplo, na forma como se realizou, foi um dos maiores pesadelos da humanidade. A materialização do sistema se converteu numa franca distorção do sonho utópico do século XIX. Atualizando esse tipo de reflexão é possível observar a sociedade tecnológica contemporânea, permeada por uma vida maquinisticamente conectada, e se perguntar se isso é mesmo o encaminhamento de um sonho humano. Se há algum medo sobre isso que ainda não conseguimos antever, quem sabe não se encontre traços disso na literatura distópica?
PC: No século XX, o rádio e a televisão unificaram, junto com as agências de notícias, alguns discursos midiáticos (durante as guerras, por exemplo). No passado praticou-se a censura, e hoje alguns países latinos vivem a estatização dos veículos de comunicação. Talvez por isso ainda se fala em quarto poder. Como ele está presente nas obras apresentadas?
RK: A censura continua sendo praticada em inúmeros países. Em alguns de forma clara, através do controle direto sobre a informação, e em outros de forma indireta, através do poder econômico.
Os textos que analisei projetam o avanço tecnológico dos meios de comunicação sempre no sentido de manter uma relação estreita com a manutenção de um modo de vida unificado, integralizado, alienado e massificado. Em textos como ‘Nós’ e ’1984′ os usos imaginados para a mídia se parecem com aquilo que os países totalitários (relacionados ao comunismo e ao nazismo) vinham apresentando naquele momento. Obviamente, esses usos são apresentados de forma hiperbólica e o que importa é o princípio. Em Nós, tudo se encaminha para a unificação do pensamento e do modo de ser. Em 1984, os meios colaboram para tornar a vida ameaçada – por conta da vigilância ininterrupta da vida – e oferecem, em termos de conteúdo, informações que semeiam a adoração a um líder, a instabilidade social e o ódio.
Em ‘Admirável mundo novo’, os meios de comunicação são amplificadores da máxima que rege os dias desde o nascimento: a vida emocionalmente fácil. Os meios oferecem produtos espetaculares, divertidos, superficiais e nada leva à reflexão. Revolução no futuro é o texto que usa as representações menos fantasiosas para os meios de comunicação. Como a essência dessa narrativa é a idéia da eficiência produtiva como norteador da sociedade, é assim que os meios são tratados e tudo é convertido em mercadoria de fácil produção e consumo. O romance que apresenta possivelmente a reflexão mais instigante sobre os meios de comunicação é ‘Fahrenheit 451′.
Se nos demais textos a mídia está completamente relacionada a uma forma de imposição definida pelo e para o poder, em Fahrenheit 451, Bradbury criou uma sociedade na qual as formas desses meios são muito mais a expressão do que as pessoas queriam. O abandono dos livros, por exemplo, é antes de tudo um desejo dessa sociedade. A alienação surgiu mais como um desejo social do que como uma forma articulada e calculada de governar.
PC: Agora a internet já democratiza os caminhos da comunicação; é possível criar canais e veículos online sem passar pela burocratização para licenciamento, os custos são diminutos e é até mesmo possível driblar algumas restrições de acesso à informação. Neste contexto, qual o papel da mídia em fomentar novas utopias?
RK: As cinco sociedades imaginadas nos textos relatados acima são sociedades tecnológicas. Uma sociedade tecnológica é, sobretudo, uma forma de organização social que se revela, que se produz e possui um modo de vida tal que o homem se transforma numa criatura disponível para um arranjo. Ou seja, sua condição de existência é ditada por questões de eficiência, cálculo e ordenação completamente exteriores aos seus desígnios. Uma das formas para se obter tudo isso é mantê-lo sob controle. Os métodos mais antigos previam a punição e a vigilância do sujeito. Isso vai “avançar” ao ponto de nos tornarmos governados por uma idéia de controle internalizado e ditado por sistemas que exigem nossa produtividade como modo de vida.
Se pensarmos que a conexão irrestrita, e em tempo total, de um número cada vez maior de pessoas faz com que nos tornemos tecnicamente acessíveis (sem que saibamos disso ou tenhamos capacidade de saber); com registros completos do que fazemos e somos; que ampliam, sobretudo, nossa capacidade de consumir; que exclui as manifestações que não transitam ou existem fora desse espaço; que nos faz atualizar equipamentos a todo instante e gera custos que não tínhamos há uma década; que produz bilionários que, nesta época, passam a ser adorados e admirados; que oferece uma face de completo acesso e expressão, mas, por outro lado, integraliza e unifica a estrutura e o conhecimento profundo de como tudo isso verdadeiramente funciona, temos um cenário que, novamente, pode ser convertido de uma utopia para uma distopia.
PC: É possível, ainda, ver os meios de comunicação como algo manipulador, ou este conceito se tornou controverso?
Talvez os meios de comunicação estejam se tornando tão somente uma forma de manter o fluxo funcionando, agora em um outro espaço para um modo tecnológico de vida em uma nova versão. Pode ser também uma maneira para o capitalismo se reinventar. Em termos de literatura distópica é possível afirmar que todas as vezes que há uma crença irrefletida em uma nova utopia, há matéria-prima para novos enredos distópicos.
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